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17 de Agosto de 2005
Clipping - O Estado de São Paulo - Artigo - Fernando Reinach - "A assinatura de uma folha de papel"
A tecnologia utilizada para identificar, nomear e separar pessoas evoluiu muito. Primeiro foram os nomes, depois as impressões digitais e mais recentemente as seqüências de DNA. Animais também recebem nomes, brincos com números e chips implantados sob a pele. Recentemente surgiu a necessidade de identificar objetos. Apareceram os códigos de barra e os chips colocados em automóveis para o pagamento de pedágio.
Os métodos de identificação se dividem em dois grandes grupos. No primeiro é usada uma característica única e intrínseca do objeto. É o caso das impressões digitais e das seqüências de DNA. No segundo se adiciona ao objeto uma identificação, como os códigos de barra. Métodos que utilizam uma característica intrínseca tendem a ser mais seguros, pois dispensam o ato de colocar a informação no objeto, que pode ser mal colocada, perdida ou fraudada.
Até hoje se acreditava que as identidades intrínsecas, como impressões digitais, só existiam em seres vivos e dificilmente poderiam ser detectadas em objetos produzidos em série. Agora isso mudou. Físicos ingleses demonstraram que papéis e plásticos possuem 'assinaturas' intrínsecas.
O papel é formado por uma trama de fibras microscópicas de celulose.
Dado que a maneira como essas fibras se organizam é randômica, os cientistas imaginaram que talvez a disposição das fibras pudesse ser utilizada como uma impressão digital. O problema era construir um equipamento capaz de determinar essa disposição. Os cientistas desenvolveram um scanner a laser, muito parecido com os scanners comerciais, mas modificado para coletar a reflexão do laser em diferentes direções. Os sinais obtidos por esse instrumento são transformados matematicamente e geram um número que tem entre 200 e 500 bytes. A grande descoberta foi que o padrão descrito por esse número é único para cada pedaço de papel. Os cientistas determinaram a 'assinatura' de cada folha de um pacote de 500 folhas de papel sulfite.
Depois molharam as folhas, colocaram-nas em impressoras, rabiscaram, amassaram, lixaram e fizeram outras barbaridades. No fim determinaram novamente a 'assinatura' de cada folha de papel e mostraram que eram capazes de identificar cada folha. O mesmo fenômeno foi encontrado em pedaços de plástico, como cartões de crédito.
Estudos estatísticos mostram que a probabilidade de dois pedaços de papel terem a mesma 'assinatura' é de 10 -72, ou seja uma chance em um número que possui 72 zeros.
Em teoria essa tecnologia permite identificar cada pedaço de papel ou plástico que circula no planeta, todas as caixas, os cheques, as notas de dinheiro, sem falar nos passaportes e nos cartões de crédito. Como a 'assinatura' molecular é intrínseca ao objeto, é praticamente impossível trocar a identificação de dois objetos.
É uma descoberta simples, que poderá, porém, ter grandes implicações no rastreamento de mercadorias e na verificação da autenticidade de documentos.Como não poderia deixar de ser, já foi patenteada e vem sendo preparada para a comercialização.Um bom exemplo de pesquisa básica que se transforma em produto no prazo de poucos meses.
Mais informações em: '´Fingerprinting´ Documents and Packaging', Nature, vol. 436, pág. 475, 2005.
Autor:Fernando Reinach (fernando@ reinach.com) é biólogo
Os métodos de identificação se dividem em dois grandes grupos. No primeiro é usada uma característica única e intrínseca do objeto. É o caso das impressões digitais e das seqüências de DNA. No segundo se adiciona ao objeto uma identificação, como os códigos de barra. Métodos que utilizam uma característica intrínseca tendem a ser mais seguros, pois dispensam o ato de colocar a informação no objeto, que pode ser mal colocada, perdida ou fraudada.
Até hoje se acreditava que as identidades intrínsecas, como impressões digitais, só existiam em seres vivos e dificilmente poderiam ser detectadas em objetos produzidos em série. Agora isso mudou. Físicos ingleses demonstraram que papéis e plásticos possuem 'assinaturas' intrínsecas.
O papel é formado por uma trama de fibras microscópicas de celulose.
Dado que a maneira como essas fibras se organizam é randômica, os cientistas imaginaram que talvez a disposição das fibras pudesse ser utilizada como uma impressão digital. O problema era construir um equipamento capaz de determinar essa disposição. Os cientistas desenvolveram um scanner a laser, muito parecido com os scanners comerciais, mas modificado para coletar a reflexão do laser em diferentes direções. Os sinais obtidos por esse instrumento são transformados matematicamente e geram um número que tem entre 200 e 500 bytes. A grande descoberta foi que o padrão descrito por esse número é único para cada pedaço de papel. Os cientistas determinaram a 'assinatura' de cada folha de um pacote de 500 folhas de papel sulfite.
Depois molharam as folhas, colocaram-nas em impressoras, rabiscaram, amassaram, lixaram e fizeram outras barbaridades. No fim determinaram novamente a 'assinatura' de cada folha de papel e mostraram que eram capazes de identificar cada folha. O mesmo fenômeno foi encontrado em pedaços de plástico, como cartões de crédito.
Estudos estatísticos mostram que a probabilidade de dois pedaços de papel terem a mesma 'assinatura' é de 10 -72, ou seja uma chance em um número que possui 72 zeros.
Em teoria essa tecnologia permite identificar cada pedaço de papel ou plástico que circula no planeta, todas as caixas, os cheques, as notas de dinheiro, sem falar nos passaportes e nos cartões de crédito. Como a 'assinatura' molecular é intrínseca ao objeto, é praticamente impossível trocar a identificação de dois objetos.
É uma descoberta simples, que poderá, porém, ter grandes implicações no rastreamento de mercadorias e na verificação da autenticidade de documentos.Como não poderia deixar de ser, já foi patenteada e vem sendo preparada para a comercialização.Um bom exemplo de pesquisa básica que se transforma em produto no prazo de poucos meses.
Mais informações em: '´Fingerprinting´ Documents and Packaging', Nature, vol. 436, pág. 475, 2005.
Autor:Fernando Reinach (fernando@ reinach.com) é biólogo