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Registro Civil paulista reafirma o direito à identidade de gênero com segurança jurídica e acolhimento
Cartórios
de São Paulo registram crescimento contínuo nas retificações de nome e gênero,
reafirmando o compromisso com dignidade, cidadania e inclusão social
Celebrado em 29 de janeiro, o Dia Nacional da
Visibilidade Trans simboliza a luta histórica da população trans por
reconhecimento, respeito e igualdade de direitos. A data remete ao ato político
realizado em 2004, no Congresso Nacional, que marcou o lançamento da campanha
“Travesti e Respeito” e consolidou a pauta da identidade de gênero na agenda
institucional brasileira.
Nos últimos anos, essa visibilidade se transformou em
política pública concreta. Um dos marcos mais significativos foi a decisão do
Supremo Tribunal Federal que reconheceu o direito à alteração de nome e gênero
independentemente de cirurgia ou laudos médicos, posteriormente regulamentada
pelo Provimento nº 73/2018 do Conselho Nacional de Justiça.
Desde então, os Cartórios de Registro Civil passaram a
desempenhar papel central na efetivação desse direito.
Série histórica: a consolidação do direito em
números
Os dados do Portal da Transparência do Registro Civil
demonstram a consolidação progressiva do procedimento no estado de São Paulo.
Desde a vigência do Provimento nº 73/2018, os números de
alterações de nome e gênero registradas em cartório foram:
2018 – 764
2019 – 1.060
2020 – 691
2021 – 1.031
2022 – 1.469
2023 – 1.616
2024 – 1.683
2025 – 1.685
2026 – 174 (dados até fevereiro)
A série histórica revela crescimento consistente,
especialmente a partir de 2021, com o período pós-pandemia e o aumento do
conhecimento da população sobre o direito, além de maior segurança no
procedimento.
Somente em 2025, 1.685 pessoas realizaram a retificação
diretamente em cartório. Em 2024, foram 1.683. A estabilidade recente demonstra
que o procedimento deixou de ser novidade normativa para se tornar prática
institucional consolidada.
Desjudicialização e segurança jurídica
A mudança promovida pelo STF e regulamentada pelo CNJ
representou verdadeira transformação estrutural no acesso à Justiça. Antes
disso, a alteração dependia de ação judicial, perícias e, muitas vezes,
comprovação de cirurgia.
Para o presidente da Arpen-SP, Leonardo Munari: “Garantir
que a pessoa seja reconhecida pelo nome e gênero com os quais se identifica é
assegurar dignidade, cidadania e respeito. Os Cartórios cumprem um papel
essencial ao transformar esse direito em realidade concreta, com segurança
jurídica e sem barreiras desnecessárias”, afirma.
O procedimento exige documentos pessoais, comprovante de
residência e certidões judiciais dos últimos cinco anos. Após análise
documental, é realizada entrevista com o oficial registrador.
O vice-presidente da Arpen-SP, Gustavo Fiscarelli,
destaca que o modelo brasileiro representa amadurecimento institucional.
“Vivemos um momento de inclusão, de sedimentação de
direitos, de desjudicialização. Esse viés representa avanços em termos de
direitos humanos que não permitem retrocessos.”
Segundo ele: “Hoje, qualquer pessoa maior pode se dirigir
diretamente ao Registro Civil e requerer a alteração de nome e/ou gênero,
independentemente de cirurgia ou laudos médicos. Isso é um avanço grandioso,
porque o Registro Civil não apenas garante a cidadania, mas também a dignidade
da pessoa.”
Documento é cidadania
Para quem vive a experiência da incongruência entre
identidade e documentação, o impacto da retificação vai muito além do aspecto
formal. Ele atravessa o cotidiano.
Alexia Santana, auxiliar administrativa e mulher trans,
afirma que a adequação do nome e do gênero nos documentos representa uma
mudança concreta na forma como a pessoa trans é tratada socialmente.
“A documentação compatível com quem eu sou muda
completamente a maneira como sou recebida nos espaços. Parece algo simples, mas
não é. É o que define se você vai ser respeitada ou exposta.”
Segundo ela, a divergência entre identidade e registro
civil gera situações recorrentes de constrangimento, muitas vezes em ambientes
comuns e cotidianos.
“Imagine estar em uma sala de espera cheia e ouvir um
nome que não corresponde à sua aparência, à sua identidade. Você se levanta e
percebe os olhares. Isso causa um desconforto enorme. Não é apenas um detalhe
burocrático, é algo que atinge diretamente a nossa dignidade”, conta.
Alexia ressalta que o problema não se limita a episódios
pontuais. A incompatibilidade documental pode afetar entrevistas de emprego,
matrículas escolares, abertura de contas bancárias e atendimentos médicos.
“Quando o documento não reflete quem você é, você precisa
se explicar o tempo todo. E ninguém deveria ter que justificar a própria
identidade para ter acesso a um direito básico.”
Para ela, a possibilidade de realizar a alteração
diretamente no cartório representa um avanço significativo na redução dessas
barreiras. “Ter a opção de resolver isso no Registro Civil, sem precisar
enfrentar um processo judicial longo e desgastante, é um alívio. Significa que
o Estado está reconhecendo que nossa identidade não depende de laudos ou
cirurgias, mas da nossa própria vivência”, afirma.
Ao comentar debates internacionais que restringem o
reconhecimento da identidade de gênero, Alexia também manifesta preocupação com
possíveis retrocessos.
“Quando lideranças políticas dizem que só existem dois
gêneros ou que não reconhecem nossa existência, isso impacta diretamente a
forma como a sociedade nos trata. Essas falas dão respaldo para que o
preconceito se manifeste com mais força.”
Ainda assim, ela destaca a importância da informação e da
atuação institucional para consolidar direitos já conquistados. “Nós, pessoas
trans, somos seres humanos e merecemos respeito e dignidade. A documentação
correta não é um privilégio, é um direito. E quando o cartório reconhece isso,
ele está reconhecendo a nossa humanidade.”
A regularização documental reduz barreiras
institucionais, amplia oportunidades profissionais e fortalece o acesso a
políticas públicas. Mais do que uma alteração registral, trata-se da afirmação
de pertencimento social.
Compromisso institucional com a dignidade
Ao longo de quase oito anos de vigência do Provimento nº
73/2018, São Paulo consolidou um modelo eficiente, seguro e acessível para a
retificação de nome e gênero.
Os números demonstram que o direito está
institucionalizado. O desafio permanente é garantir que cada atendimento seja
marcado pelo acolhimento, pelo respeito e pela compreensão de que o Registro
Civil é a porta de entrada da personalidade jurídica.
Por: Eduardo Carrasco, Assessoria de Comunicação Arpen-SP