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19 de Fevereiro de 2006
Globo Repórter - Terceiro Bloco - Manual da vida a dois
A assistente social Fernanda Mendonça de Oliveira tem 25 anos e o comerciante Thiago Leal Campos, 21. Cresceram no mesmo bairro, Campo Grande, na Zona Oeste do Rio de Janeiro, e nunca tinham se visto. Bastou um encontro.
"No primeiro dia ela já falou em casamento", lembra Thiago.
Fernanda conta que perguntou a Thiago se ele queria namorar, mas fez uma ressalva: "Vai ter que casar". O rapaz ficou assustado.
"Namorar só pra casar. E eu concordei", diz Thiago.
Será que foi a determinação da namorada ou um empurrãozinho do destino? Thiago e Fernanda se conheceram quando ele se mudou para a rua onde ela morava. Em um ano, só aumentou a certeza de que era hora de casar.
Thiago garante que não dá mais para agüentar separado. "Nem pensar", diz ele.
"A gente se vê todos os dias, desde que começamos a namorar até hoje", conta Fernanda.
Durante todo o namoro e o noivado, apenas alguns passos separaram Fernanda de Thiago. Esse amor que mora ao lado acabou fazendo com que os dois experimentassem o gostinho de uma convivência muito, mas muito estreita, mesmo antes do casamento. Afinal, entre os dois só existia uma parede. "Quando ela queria falar comigo, batia na parede e eu ia até lá. Era bom porque gastava menos telefone", brinca Thiago.
Um namoro ao alcance dos ouvidos e dos olhos. "Eu ficava tomando conta pra ver se ele havia chegado", lembra Fernanda. "No fundo, ele gosta. Sabe que quem ama cuida. É cuidado, não é só ciúme. De repente, pode até ser insegurança. Mas eu sou assim, e ele deve gostar porque vai casar".
"Eu não pensava em casar, até porque tinha carro novo, boa condição para curtir com os amigos, mas acabou acontecendo. Quando vi, já estava fisgado", diz Thiago.
Como Fernanda e Thiago, quem encontra um grande amor acaba construindo planos, expectativas para o futuro. Mas qual o segredo para manter uma relação a dois? Quando já não há paredes entre o casal, e é preciso conviver sob o mesmo teto, o que pode fazer essa união durar?
Pesquisadores foram buscar as respostas em vários países e descobriram o que há em comum entre aqueles que conseguiram ter casamentos duradouros e o mais importante: felizes!
"Na realidade, o casamento satisfatório é aquele em que os cônjuges conseguiram resolver os problemas juntos. Eles conversam sobre tudo, chegam a um consenso. Têm valores, interesses e objetivos de vida em comum", comenta a psicóloga Maria Betânia Norgren.
Mestre em psicologia, a terapeuta de casais entrevistou 38 casais de São Paulo que têm entre 20 e 47 anos de casamento. Ela usou o questionário aplicado em outros oito países da Europa, África e América do Norte. E concluiu: os casais brasileiros felizes seguem o mesmo padrão dos de outros países.
O manual da vida a dois bem-sucedida, segundo a pesquisa, segue premissas simples. Ao lado do amor, em primeiro lugar, deve estar a "convicção de que o casamento é uma parceria para a vida toda". Em segundo lugar, "o sentimento de que um completa o outro", seguido da "sinceridade", mesmo nas situações de crise, além de "paciência" e "compreensão".
"Para chegar lá é preciso muito empenho, muita vontade, muito trabalho no dia-a-dia", aconselha a psicóloga.
A rotina, considerada a vilã de muitos casamentos, pode ser aliada na união feliz. É o que a jornalista Shirley e o engenheiro Armando Antongini vêm conseguindo fazer em de 12 anos de vida comum. Não perderam a vontade de compartilhar cada momento.
"Prestar atenção um no outro e continuar mantendo o cinema, o jantar fora, a mão dada, a televisão juntos", diz Shirley.
"Aproveitar e ser feliz naquele instante da vida. Não interessa se é pouco ou muito, você tem que ser feliz", completa Armando.
Ele já passou por um primeiro casamento. Com Shirley, a experiência foi mais madura: começaram vivendo juntos, tiveram uma filha, Vitória, e só então decidiram se casar. A cerimônia, em outubro do ano passado, teve tudo o que a noiva queria: a família reunida, padre, champanhe, festa com direito a dança, e o bolo com os noivinhos e a filha.
"O Armando com os óculos, a cor do vestido parecida. A família somos nós três, e ela (a filha) ganhou um lugar no bolo", conta Shirley.
Sinal dos tempos: o casamento já com a família pronta? "A família toda participou", diz Shirley.
Por que se casar no civil depois de 12 anos de uma união estável? "A gente quis formalizar, em primeiro lugar, por causa da Vitória. E, depois, por nós mesmos, claro", justifica Armando.
Juntos, agora, eles planejam a lua-de-mel, que será em abril. Mas nesta, Vitória não vai. Só o casal, que adotou uma novidade no mercado de casamentos: os convidados podiam escolher entre dar um presente ou contribuir com uma cota para a viagem dos noivos. "A gente é diferente até por isso", ressalta Shirley.
Casamento duradouro, felicidade inabalável? Segundo a pesquisa, não. Do total de casais juntos há mais de 20 anos, 80% oscilam entre satisfeitos, mais ou menos satisfeitos ou apenas um satisfeito em alguns momentos.
A psicóloga Maria Betânia diz que o casal não fica totalmente feliz a vida inteira. "Tem momentos em que você está mais satisfeito; outros, menos satisfeito. Isso tudo faz parte da vida".
"Se temos problemas? Temos. Às vezes, de relacionamento em casa, com a família, na vida profissional, como todo mundo tem. Todo ser humano tem. Mas, quando temos problemas internos, esses têm que ser resolvidos rapidamente", diz Armando.
"Esses casais não guardam grandes mágoas, não guardam rancor. Eles vão colocando suas dificuldades e, com isso, atualizando a relação", diz a psicóloga.
Manter o brilho e o frescor daqueles primeiros instantes do casamento depende de cada um. Fernanda e Thiago deram os primeiros passos, numa cerimônia evangélica, cheia de emoção. O pai chorou, a noiva sorriu...
Um casal disposto a romper uma barreira estatística no Brasil: a de que os casamentos têm em média dez anos e meio de duração. Os jovens sonham em um dia olhar para trás e, como Armando e Shirley, poder falar com orgulho da vida em comum. Resultado do amor e de muito trabalho.
"A vida não tem uma segunda chance, não tem rascunho. Se você olhar para trás, o que foi vivido já era. Olha para frente", conclui Armando.
Se surgir um grande amor...
"Pegue", diz Shirley.
"E não largue", completa Armando.
Sonho de casamento
É um mercado efervescente! Movimenta R$ 2 bilhões por ano no Brasil, segundo a estimativa do setor, e não pára de crescer. Criada há 50 anos, a "Rua das Noivas", em São Paulo, ficou pequena para tanta procura, e hoje as lojas se estendem pelas outras ruas do bairro. Música, lembrancinhas, carros para casamentos - divertido, luxuoso ou sóbrio. Pagando entre R$ 500 e R$ 1,8 mil, é possível chegar em um deles à igreja.
E as roupas? Do noivo aos convidados. Para as noivas, tudo! Elas entram e saem do provador uma infinidade de vezes. "É bonito, né?", orgulha-se a advogada Thays Martins, que diz já se sentir pisando no altar.
Trabalho delicado, nos moldes da tradição. Só em uma rua, 1,5 mil profissionais fazem os vestidos para cem mil noivas por ano. Um pontinho aqui, outro ali... Brilho e transparência. Caudas como nos trajes de princesas, ares de contos de fadas. Em cada loja, modelos e preços para todos os gostos e bolsos. A oferta do dia? Alugar um vestido por duas parcelas de R$ 150. Se a escolha for mais sofisticada, o aluguel pode chegar a R$ 4 mil.
A professora Lígia Valério custou a se decidir. E olha que ela nem ia se casar na igreja. "Vai ser uma cerimônia simples, só no civil. Mas ainda assim é uma emoção muito grande, uma expectativa. Era um sonho", diz ela.
Olhando, parece tudo igual: vestidos brancos e longos. Que nada! Cada um tem um corte, um detalhe, um bordado. Cada um é único. Como o sonho do casamento que não se repete, nem mesmo para quem já acompanhou milhares de noivas e ainda espera a vez de usar um desses.
"Fiz muitos sonhos de noivas, mas nunca realizei o meu", lamenta a costureira Ana Maria do Rosário.
"Eu quero realizar o sonho de casar de noiva até o ano que vem", revela a gerente de vendas Meire Silva.
Elas fazem parte da equipe dos bastidores da rua das noivas e nunca se casaram. Meire é gerente de uma loja, começou aos 13 anos, na oficina: foi bordadeira e costureira. Ana Maria faz vestidos há 20 anos. Neste ofício, construiu uma vida independente e mora sozinha. Mas, no dia-a-dia, a cada prova das jovens que passam pelo ateliê, ela tece aos poucos o próprio desejo de também encontrar um parceiro.
"Procuro e sempre procurei", conta a costureira.
Meire já até escolheu um modelo. "De ver irmãs, tias, o álbum da sua própria mãe, você fica imaginando como vai ser o seu vestido de noiva", diz ela.
"O véu, no rito que é o casamento, tinha a significação simbólica de apontar o estado virginal da noiva", conta a historiadora Mary del Priore. De livros e registros centenários, a pesquisadora reconstituiu a história do amor no Brasil, desde o Período Colonial.
O vestido branco começou a ser usado no século 19 por influência de modistas franceses, mas já não carrega os significados do passado. "A idéia era de a menina ficar resguardada, pura e virgem até o momento de casar", conta Mary.
Os estudos da historiadora mostram que a mulher reescreveu seu papel no casamento. "Entendia-se que felicidade era o bem-estar do marido no casamento. Então, a mulher era criada para agradá-lo. Mas, a partir dos anos 70, com a chegada da pílula, ela não só consegue trabalhar como também consegue equacionar o problema do número de filhos. É óbvio que nós temos uma série de ventos soprando a favor da liberação sexual".
Vera Lúcia Costa, que também é costureira na "Rua das Noivas", foi casada e viveu a época da submissão feminina. Prefere os dias de hoje e agora, viúva, quer experimentar um novo casamento. "A emoção que eu não tive no primeiro gostaria de ter no segundo", conta Vera, que se acha mais bem preparada agora.
Para a mulher do século 21, tradição e modernidade convivem sem problemas. Por que não se vestir como uma princesa? Meire diz que já encontrou o príncipe sob medida para ela. "Tem que ser de branco, com véu, grinalda, tudo o que tem direito", ressalta.
Para Ana Maria, o sonho de casamento também se espelha no vestido, que deixa de ser mais um no meio de tantos outros, no dia em que é escolhido por alguém. "Ainda quero entrar na igreja com um vestido de noiva que eu vou confeccionar. Você ainda vai saber que eu realizei esse sonho", assegura a costureira.
"No primeiro dia ela já falou em casamento", lembra Thiago.
Fernanda conta que perguntou a Thiago se ele queria namorar, mas fez uma ressalva: "Vai ter que casar". O rapaz ficou assustado.
"Namorar só pra casar. E eu concordei", diz Thiago.
Será que foi a determinação da namorada ou um empurrãozinho do destino? Thiago e Fernanda se conheceram quando ele se mudou para a rua onde ela morava. Em um ano, só aumentou a certeza de que era hora de casar.
Thiago garante que não dá mais para agüentar separado. "Nem pensar", diz ele.
"A gente se vê todos os dias, desde que começamos a namorar até hoje", conta Fernanda.
Durante todo o namoro e o noivado, apenas alguns passos separaram Fernanda de Thiago. Esse amor que mora ao lado acabou fazendo com que os dois experimentassem o gostinho de uma convivência muito, mas muito estreita, mesmo antes do casamento. Afinal, entre os dois só existia uma parede. "Quando ela queria falar comigo, batia na parede e eu ia até lá. Era bom porque gastava menos telefone", brinca Thiago.
Um namoro ao alcance dos ouvidos e dos olhos. "Eu ficava tomando conta pra ver se ele havia chegado", lembra Fernanda. "No fundo, ele gosta. Sabe que quem ama cuida. É cuidado, não é só ciúme. De repente, pode até ser insegurança. Mas eu sou assim, e ele deve gostar porque vai casar".
"Eu não pensava em casar, até porque tinha carro novo, boa condição para curtir com os amigos, mas acabou acontecendo. Quando vi, já estava fisgado", diz Thiago.
Como Fernanda e Thiago, quem encontra um grande amor acaba construindo planos, expectativas para o futuro. Mas qual o segredo para manter uma relação a dois? Quando já não há paredes entre o casal, e é preciso conviver sob o mesmo teto, o que pode fazer essa união durar?
Pesquisadores foram buscar as respostas em vários países e descobriram o que há em comum entre aqueles que conseguiram ter casamentos duradouros e o mais importante: felizes!
"Na realidade, o casamento satisfatório é aquele em que os cônjuges conseguiram resolver os problemas juntos. Eles conversam sobre tudo, chegam a um consenso. Têm valores, interesses e objetivos de vida em comum", comenta a psicóloga Maria Betânia Norgren.
Mestre em psicologia, a terapeuta de casais entrevistou 38 casais de São Paulo que têm entre 20 e 47 anos de casamento. Ela usou o questionário aplicado em outros oito países da Europa, África e América do Norte. E concluiu: os casais brasileiros felizes seguem o mesmo padrão dos de outros países.
O manual da vida a dois bem-sucedida, segundo a pesquisa, segue premissas simples. Ao lado do amor, em primeiro lugar, deve estar a "convicção de que o casamento é uma parceria para a vida toda". Em segundo lugar, "o sentimento de que um completa o outro", seguido da "sinceridade", mesmo nas situações de crise, além de "paciência" e "compreensão".
"Para chegar lá é preciso muito empenho, muita vontade, muito trabalho no dia-a-dia", aconselha a psicóloga.
A rotina, considerada a vilã de muitos casamentos, pode ser aliada na união feliz. É o que a jornalista Shirley e o engenheiro Armando Antongini vêm conseguindo fazer em de 12 anos de vida comum. Não perderam a vontade de compartilhar cada momento.
"Prestar atenção um no outro e continuar mantendo o cinema, o jantar fora, a mão dada, a televisão juntos", diz Shirley.
"Aproveitar e ser feliz naquele instante da vida. Não interessa se é pouco ou muito, você tem que ser feliz", completa Armando.
Ele já passou por um primeiro casamento. Com Shirley, a experiência foi mais madura: começaram vivendo juntos, tiveram uma filha, Vitória, e só então decidiram se casar. A cerimônia, em outubro do ano passado, teve tudo o que a noiva queria: a família reunida, padre, champanhe, festa com direito a dança, e o bolo com os noivinhos e a filha.
"O Armando com os óculos, a cor do vestido parecida. A família somos nós três, e ela (a filha) ganhou um lugar no bolo", conta Shirley.
Sinal dos tempos: o casamento já com a família pronta? "A família toda participou", diz Shirley.
Por que se casar no civil depois de 12 anos de uma união estável? "A gente quis formalizar, em primeiro lugar, por causa da Vitória. E, depois, por nós mesmos, claro", justifica Armando.
Juntos, agora, eles planejam a lua-de-mel, que será em abril. Mas nesta, Vitória não vai. Só o casal, que adotou uma novidade no mercado de casamentos: os convidados podiam escolher entre dar um presente ou contribuir com uma cota para a viagem dos noivos. "A gente é diferente até por isso", ressalta Shirley.
Casamento duradouro, felicidade inabalável? Segundo a pesquisa, não. Do total de casais juntos há mais de 20 anos, 80% oscilam entre satisfeitos, mais ou menos satisfeitos ou apenas um satisfeito em alguns momentos.
A psicóloga Maria Betânia diz que o casal não fica totalmente feliz a vida inteira. "Tem momentos em que você está mais satisfeito; outros, menos satisfeito. Isso tudo faz parte da vida".
"Se temos problemas? Temos. Às vezes, de relacionamento em casa, com a família, na vida profissional, como todo mundo tem. Todo ser humano tem. Mas, quando temos problemas internos, esses têm que ser resolvidos rapidamente", diz Armando.
"Esses casais não guardam grandes mágoas, não guardam rancor. Eles vão colocando suas dificuldades e, com isso, atualizando a relação", diz a psicóloga.
Manter o brilho e o frescor daqueles primeiros instantes do casamento depende de cada um. Fernanda e Thiago deram os primeiros passos, numa cerimônia evangélica, cheia de emoção. O pai chorou, a noiva sorriu...
Um casal disposto a romper uma barreira estatística no Brasil: a de que os casamentos têm em média dez anos e meio de duração. Os jovens sonham em um dia olhar para trás e, como Armando e Shirley, poder falar com orgulho da vida em comum. Resultado do amor e de muito trabalho.
"A vida não tem uma segunda chance, não tem rascunho. Se você olhar para trás, o que foi vivido já era. Olha para frente", conclui Armando.
Se surgir um grande amor...
"Pegue", diz Shirley.
"E não largue", completa Armando.
Sonho de casamento
É um mercado efervescente! Movimenta R$ 2 bilhões por ano no Brasil, segundo a estimativa do setor, e não pára de crescer. Criada há 50 anos, a "Rua das Noivas", em São Paulo, ficou pequena para tanta procura, e hoje as lojas se estendem pelas outras ruas do bairro. Música, lembrancinhas, carros para casamentos - divertido, luxuoso ou sóbrio. Pagando entre R$ 500 e R$ 1,8 mil, é possível chegar em um deles à igreja.
E as roupas? Do noivo aos convidados. Para as noivas, tudo! Elas entram e saem do provador uma infinidade de vezes. "É bonito, né?", orgulha-se a advogada Thays Martins, que diz já se sentir pisando no altar.
Trabalho delicado, nos moldes da tradição. Só em uma rua, 1,5 mil profissionais fazem os vestidos para cem mil noivas por ano. Um pontinho aqui, outro ali... Brilho e transparência. Caudas como nos trajes de princesas, ares de contos de fadas. Em cada loja, modelos e preços para todos os gostos e bolsos. A oferta do dia? Alugar um vestido por duas parcelas de R$ 150. Se a escolha for mais sofisticada, o aluguel pode chegar a R$ 4 mil.
A professora Lígia Valério custou a se decidir. E olha que ela nem ia se casar na igreja. "Vai ser uma cerimônia simples, só no civil. Mas ainda assim é uma emoção muito grande, uma expectativa. Era um sonho", diz ela.
Olhando, parece tudo igual: vestidos brancos e longos. Que nada! Cada um tem um corte, um detalhe, um bordado. Cada um é único. Como o sonho do casamento que não se repete, nem mesmo para quem já acompanhou milhares de noivas e ainda espera a vez de usar um desses.
"Fiz muitos sonhos de noivas, mas nunca realizei o meu", lamenta a costureira Ana Maria do Rosário.
"Eu quero realizar o sonho de casar de noiva até o ano que vem", revela a gerente de vendas Meire Silva.
Elas fazem parte da equipe dos bastidores da rua das noivas e nunca se casaram. Meire é gerente de uma loja, começou aos 13 anos, na oficina: foi bordadeira e costureira. Ana Maria faz vestidos há 20 anos. Neste ofício, construiu uma vida independente e mora sozinha. Mas, no dia-a-dia, a cada prova das jovens que passam pelo ateliê, ela tece aos poucos o próprio desejo de também encontrar um parceiro.
"Procuro e sempre procurei", conta a costureira.
Meire já até escolheu um modelo. "De ver irmãs, tias, o álbum da sua própria mãe, você fica imaginando como vai ser o seu vestido de noiva", diz ela.
"O véu, no rito que é o casamento, tinha a significação simbólica de apontar o estado virginal da noiva", conta a historiadora Mary del Priore. De livros e registros centenários, a pesquisadora reconstituiu a história do amor no Brasil, desde o Período Colonial.
O vestido branco começou a ser usado no século 19 por influência de modistas franceses, mas já não carrega os significados do passado. "A idéia era de a menina ficar resguardada, pura e virgem até o momento de casar", conta Mary.
Os estudos da historiadora mostram que a mulher reescreveu seu papel no casamento. "Entendia-se que felicidade era o bem-estar do marido no casamento. Então, a mulher era criada para agradá-lo. Mas, a partir dos anos 70, com a chegada da pílula, ela não só consegue trabalhar como também consegue equacionar o problema do número de filhos. É óbvio que nós temos uma série de ventos soprando a favor da liberação sexual".
Vera Lúcia Costa, que também é costureira na "Rua das Noivas", foi casada e viveu a época da submissão feminina. Prefere os dias de hoje e agora, viúva, quer experimentar um novo casamento. "A emoção que eu não tive no primeiro gostaria de ter no segundo", conta Vera, que se acha mais bem preparada agora.
Para a mulher do século 21, tradição e modernidade convivem sem problemas. Por que não se vestir como uma princesa? Meire diz que já encontrou o príncipe sob medida para ela. "Tem que ser de branco, com véu, grinalda, tudo o que tem direito", ressalta.
Para Ana Maria, o sonho de casamento também se espelha no vestido, que deixa de ser mais um no meio de tantos outros, no dia em que é escolhido por alguém. "Ainda quero entrar na igreja com um vestido de noiva que eu vou confeccionar. Você ainda vai saber que eu realizei esse sonho", assegura a costureira.