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26 de Março de 2004
Clipping - New York Times - Algo novo para filhos de casais homossexuais
Em uma recente manhã chuvosa de domingo, Gabriel Damast planejara ficar em casa, assistindo a desenhos animados e comendo torradas. Ao invés disso, ele colocou seu cinto favorito, pegou seu MP3 player e dirigiu-se para a Prefeitura para assistir a suas duas mães, Fredda Damast e Birch Early, se casarem.
"Foi tão legal", afirmou Gabriel, 13 anos, que ficou encarregado de levar as alianças, após passar uma noite na fila com suas mães. "Eu sempre aceitei que "sim, elas são minhas mães", mas elas estavam realmente se casando. Eu fiquei muito alegre. Simplesmente alegre".
A explosão de casamentos entre pessoas do mesmo sexo aqui e em todo o país provocou um debate nacional sobre a união civil homossexual. Conforme as batalhas legais e retóricas se espalham pelos escritórios dos clérigos, na campanha presidencial e nos tribunais, um grupo assiste a ele com mais do que um interesse casual: os filhos de casais homossexuais.
O resultado ainda está por vir. A prefeitura de São Francisco parou de emitir licenças de casamento para casais gays na semana passada, sob uma ordem do tribunal, e Massachusetts está movendo-se na direção de uma emenda constitucional proibindo a prática. A Suprema Corte da Califórnia deve agendar uma audiência para maio ou junho para discutir a autoridade do município em conceder licenças de casamento para casais homossexuais.
Mas, mesmo se o casamento gay desaparecer, os pais homossexuais continuarão a viver em estado marital, educando crianças de antigos casamentos heterossexuais ou formando famílias através da adoção, ou doação de esperma ou óvulos. Para os filhos dessas famílias - que conhecem seus pais como pessoas participativas nas atividades escolares, técnicos de futebol e líderes de escoteiros - os casamentos recentes foram, de uma só vez, históricos e profundamente pessoais. Alguns descreveram a palavra "nós" para descrever o casamento.
"Antes, era "oh, seus pais são apenas companheiros"", contou Max Blachman, filhos de 13 anos de um casal de lésbicas em Berkeley. "Agoras, elas são esposas. Logo, é uma nova maneira de pensar sobre elas".
O censo de 2000 relatou que 594 mil famílias nos Estados Unidos eram mantidas por parceiros do mesmo sexo, um dado considerado por alguns especialistas como conservador. Desses, cerca de 33% dos casais lésbicos têm filhos com 18 anos ou menos, comparados com 22% entre os casais formados por homens.
Não há comparações confiáveis com o censo de 1990, mas "está muito claro que a paternidade gay subiu significativamente nos últimos 10 anos", afirmou Judith Stacey, professor de sociologia no Centro de Estudo de Gênero e Sexualidade na Universidade de Nova York.
De certo modo, Alex Morris, um precoce menino de 11 anos que sonha em se tornar presidente, tem a dificuldade dos ricos - dois pares de pais amáveis. Sua mãe biológica, Paula Morris, 43 anos, que se casou recentemente com sua parceira de 16 anos, Cory Pohley, 44 anos. A gravidez foi planejada em conjunto com seu amigo Tony Humber, 45 anos, pai de Alex, que vive com Harvey Yaw, 47 anos, seu companheiro de 23 anos. Todos eles dividem as responsabilidades por Alex, que viaja entre as casas durante a semana. Algumas vezes, eles viajam juntos de férias.
Comentando sobre o casamento de suas mães, Alex disse: "É algo que eu sempre quis. Eu sempre convivi com pessoas dizendo "oh, é aniversário dos meus pais nessa semana". Sempre tive a visão de dois pais, casados, com anéis. E eu sabia que provavelmente nunca teria essa experiência".
Isso mudou no prédio da Prefeitura quando suas mães trocaram seus votos. "A atmosfera estava cheia de vida", recordou Alex. "Eu não conseguia me conter. Eu pensava "ai meu Deus, ai meu Deus, ai meu Deus". Eu estava tão feliz que eu queria gritar".
A percepção de legitimidade de seu relacionamento, afirmou Morris, será importante para seu filho, que mudou de escola recentemente, em parte por que teve problemas em fazer amigos. Alex relacionou algumas de suas dificuldades ao medo de ser ridicularizado por sua situação familiar.
"Eu me fechava em minha concha", contou ele. "Se eu contasse isso a alguém, eles ririam de mim para sempre". Ele tem se sentido menos sozinho, revelou, desde que entrou em contato com o Colage (sigla que, em português, equivale a Filhos de Lésbicas e Gays), um grupo de apoio e defesa nacional para filhos de pais homossexuais, bissexuais e transexuais, em São Francisco. O casamento foi um marco ainda mais importante.
"Política e oficialmente, todo mundo sabe que isso é verdade - elas estão juntas", falou Alex sobre suas mães. "É algo que sentia que precisava vivenciar. Para mim, as pessoas que consideram isso terrível não têm coração".
Até pouco tempo atrás, Jaclyn Mullins, 13 anos, uma aluna da oitava série no subúrbio de Dublin, leste da São Francisco, detestava ir às aulas de atualidades. Ela é uma das três crianças adotadas por Dianna Gewing-Mullins, 39 anos, e Rudi Gewing-Mullins, 38 anos, que se casaram recentemente. Elas também têm uma filha biológica.
Quando o surge o assunto de casamentos entre pessoas do mesmo sexo na classe, "eu ouço diversos comentários como "eca, isso é nojento"", contou Jaclyn. "Vários alunos dizem, "isso é realmente repugnante"". Ela afirmou que nunca confidenciou aos seus colegas de classe sobre sua família, e fica em silêncio nas aulas.
"Eu gostaria que eles parassem", lamentou ela, com os olhos voltados para o chão.
As pesquisas mostram que filhos de pais homossexuais se desenvolvem de maneira similar aos filhos de pais heterossexuais, falou Charlotte J. Patterson, professora de psicologia da Universidade de Virgínia, que estudou famílias chefiadas por gays e lésbicas.
No geral, observou Patterson, a paternidade para casais homossexuais é uma escolha consciente, mas ainda não há estudos adequados medindo o nível de estresse em seus filhos.
Assim como membros de outras minorias, filhos de gays e lésbicas precisam lidar com diferenças sociais ou econômicas, que podem ser "uma grande carga emocional", explicou Patterson, acrescentando, "Saber que seus pais assumiram o compromisso de ficarem juntos e tomarem conta de você para sempre, deixa as crianças mais seguras".
Parke Humphrey-Keever, 21 anos, aluno do penúltimo ano da Universidade Estadual de Portland, em Oregon, testemunhou dois casamentos recentes de suas mães - o primeiro, no Canadá, o segundo em São Francisco. Quando Humphrey-Keever tinha 10 anos, suas mães realizaram uma cerimônia de compromisso na qual lhes deram um brinco que cominava com suas alianças. Elas estão juntas há 19 anos.
Durante o ensino fundamental, relembrou Humphrey-Keever, de forma levemente descontraída, "eles faziam o Dia da Diversidade só por causa da minha família".
"No ensino médio, eu não tornava público que eu tinha duas mães", disse ele. "Os outros alunos pregavam a aceitação, mas era só ouvir as conversas nos corredores para ver que isso não é verdade. Eu contornava isso com mentirinhas e sorrisos".
Agora que ele é mais velho, ele teve tempo de refletir. "Eu não sou gay", falou Humphrey-Keever. "Eu sou um democrata fiscalmente conservador. Eu tive uma família muito estável. Eu tive dois modelos excelentes com uma forte ética trabalhistas. Eu vi duas pessoas que se amam muito". Assim como outros filhos de casais homossexuais, ele tem consciência de que o casamento de seus pais foi construído sobre um terreno legal delicado.
"Eu não acho que eles possam cancelá-lo", afirmou Alex Morris, remoendo sobre uma possível emenda, sentado em sua sala de aula da sexta série sozinho com seus pais. "Talvez eles possam entrar no Saguão de Matrimônios e rasgar os papéis. Mas emocionalmente, eles nunca podem tirar o meu sentimento de que meus pais estão casados".
Fonte: IG
"Foi tão legal", afirmou Gabriel, 13 anos, que ficou encarregado de levar as alianças, após passar uma noite na fila com suas mães. "Eu sempre aceitei que "sim, elas são minhas mães", mas elas estavam realmente se casando. Eu fiquei muito alegre. Simplesmente alegre".
A explosão de casamentos entre pessoas do mesmo sexo aqui e em todo o país provocou um debate nacional sobre a união civil homossexual. Conforme as batalhas legais e retóricas se espalham pelos escritórios dos clérigos, na campanha presidencial e nos tribunais, um grupo assiste a ele com mais do que um interesse casual: os filhos de casais homossexuais.
O resultado ainda está por vir. A prefeitura de São Francisco parou de emitir licenças de casamento para casais gays na semana passada, sob uma ordem do tribunal, e Massachusetts está movendo-se na direção de uma emenda constitucional proibindo a prática. A Suprema Corte da Califórnia deve agendar uma audiência para maio ou junho para discutir a autoridade do município em conceder licenças de casamento para casais homossexuais.
Mas, mesmo se o casamento gay desaparecer, os pais homossexuais continuarão a viver em estado marital, educando crianças de antigos casamentos heterossexuais ou formando famílias através da adoção, ou doação de esperma ou óvulos. Para os filhos dessas famílias - que conhecem seus pais como pessoas participativas nas atividades escolares, técnicos de futebol e líderes de escoteiros - os casamentos recentes foram, de uma só vez, históricos e profundamente pessoais. Alguns descreveram a palavra "nós" para descrever o casamento.
"Antes, era "oh, seus pais são apenas companheiros"", contou Max Blachman, filhos de 13 anos de um casal de lésbicas em Berkeley. "Agoras, elas são esposas. Logo, é uma nova maneira de pensar sobre elas".
O censo de 2000 relatou que 594 mil famílias nos Estados Unidos eram mantidas por parceiros do mesmo sexo, um dado considerado por alguns especialistas como conservador. Desses, cerca de 33% dos casais lésbicos têm filhos com 18 anos ou menos, comparados com 22% entre os casais formados por homens.
Não há comparações confiáveis com o censo de 1990, mas "está muito claro que a paternidade gay subiu significativamente nos últimos 10 anos", afirmou Judith Stacey, professor de sociologia no Centro de Estudo de Gênero e Sexualidade na Universidade de Nova York.
De certo modo, Alex Morris, um precoce menino de 11 anos que sonha em se tornar presidente, tem a dificuldade dos ricos - dois pares de pais amáveis. Sua mãe biológica, Paula Morris, 43 anos, que se casou recentemente com sua parceira de 16 anos, Cory Pohley, 44 anos. A gravidez foi planejada em conjunto com seu amigo Tony Humber, 45 anos, pai de Alex, que vive com Harvey Yaw, 47 anos, seu companheiro de 23 anos. Todos eles dividem as responsabilidades por Alex, que viaja entre as casas durante a semana. Algumas vezes, eles viajam juntos de férias.
Comentando sobre o casamento de suas mães, Alex disse: "É algo que eu sempre quis. Eu sempre convivi com pessoas dizendo "oh, é aniversário dos meus pais nessa semana". Sempre tive a visão de dois pais, casados, com anéis. E eu sabia que provavelmente nunca teria essa experiência".
Isso mudou no prédio da Prefeitura quando suas mães trocaram seus votos. "A atmosfera estava cheia de vida", recordou Alex. "Eu não conseguia me conter. Eu pensava "ai meu Deus, ai meu Deus, ai meu Deus". Eu estava tão feliz que eu queria gritar".
A percepção de legitimidade de seu relacionamento, afirmou Morris, será importante para seu filho, que mudou de escola recentemente, em parte por que teve problemas em fazer amigos. Alex relacionou algumas de suas dificuldades ao medo de ser ridicularizado por sua situação familiar.
"Eu me fechava em minha concha", contou ele. "Se eu contasse isso a alguém, eles ririam de mim para sempre". Ele tem se sentido menos sozinho, revelou, desde que entrou em contato com o Colage (sigla que, em português, equivale a Filhos de Lésbicas e Gays), um grupo de apoio e defesa nacional para filhos de pais homossexuais, bissexuais e transexuais, em São Francisco. O casamento foi um marco ainda mais importante.
"Política e oficialmente, todo mundo sabe que isso é verdade - elas estão juntas", falou Alex sobre suas mães. "É algo que sentia que precisava vivenciar. Para mim, as pessoas que consideram isso terrível não têm coração".
Até pouco tempo atrás, Jaclyn Mullins, 13 anos, uma aluna da oitava série no subúrbio de Dublin, leste da São Francisco, detestava ir às aulas de atualidades. Ela é uma das três crianças adotadas por Dianna Gewing-Mullins, 39 anos, e Rudi Gewing-Mullins, 38 anos, que se casaram recentemente. Elas também têm uma filha biológica.
Quando o surge o assunto de casamentos entre pessoas do mesmo sexo na classe, "eu ouço diversos comentários como "eca, isso é nojento"", contou Jaclyn. "Vários alunos dizem, "isso é realmente repugnante"". Ela afirmou que nunca confidenciou aos seus colegas de classe sobre sua família, e fica em silêncio nas aulas.
"Eu gostaria que eles parassem", lamentou ela, com os olhos voltados para o chão.
As pesquisas mostram que filhos de pais homossexuais se desenvolvem de maneira similar aos filhos de pais heterossexuais, falou Charlotte J. Patterson, professora de psicologia da Universidade de Virgínia, que estudou famílias chefiadas por gays e lésbicas.
No geral, observou Patterson, a paternidade para casais homossexuais é uma escolha consciente, mas ainda não há estudos adequados medindo o nível de estresse em seus filhos.
Assim como membros de outras minorias, filhos de gays e lésbicas precisam lidar com diferenças sociais ou econômicas, que podem ser "uma grande carga emocional", explicou Patterson, acrescentando, "Saber que seus pais assumiram o compromisso de ficarem juntos e tomarem conta de você para sempre, deixa as crianças mais seguras".
Parke Humphrey-Keever, 21 anos, aluno do penúltimo ano da Universidade Estadual de Portland, em Oregon, testemunhou dois casamentos recentes de suas mães - o primeiro, no Canadá, o segundo em São Francisco. Quando Humphrey-Keever tinha 10 anos, suas mães realizaram uma cerimônia de compromisso na qual lhes deram um brinco que cominava com suas alianças. Elas estão juntas há 19 anos.
Durante o ensino fundamental, relembrou Humphrey-Keever, de forma levemente descontraída, "eles faziam o Dia da Diversidade só por causa da minha família".
"No ensino médio, eu não tornava público que eu tinha duas mães", disse ele. "Os outros alunos pregavam a aceitação, mas era só ouvir as conversas nos corredores para ver que isso não é verdade. Eu contornava isso com mentirinhas e sorrisos".
Agora que ele é mais velho, ele teve tempo de refletir. "Eu não sou gay", falou Humphrey-Keever. "Eu sou um democrata fiscalmente conservador. Eu tive uma família muito estável. Eu tive dois modelos excelentes com uma forte ética trabalhistas. Eu vi duas pessoas que se amam muito". Assim como outros filhos de casais homossexuais, ele tem consciência de que o casamento de seus pais foi construído sobre um terreno legal delicado.
"Eu não acho que eles possam cancelá-lo", afirmou Alex Morris, remoendo sobre uma possível emenda, sentado em sua sala de aula da sexta série sozinho com seus pais. "Talvez eles possam entrar no Saguão de Matrimônios e rasgar os papéis. Mas emocionalmente, eles nunca podem tirar o meu sentimento de que meus pais estão casados".
Fonte: IG