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Novo Manual Orientativo vai trazer propostas para atendimento à população em situação de rua
Mais de 300 pessoas participaram das discussões das
oficinas temáticas realizadas no II Encontro Nacional PopRuaJud, realizado em
São Luís, em parceria com o Tribunal de Justiça do Maranhão (TJMA), de 13 a 15
de setembro. As propostas aprovadas serão consolidadas pelo Comitê Nacional
PopRuaJud do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) para compor o Manual
Orientativo 2025.
Durante as atividades, foram debatidas as orientações
para as questões de Cidadania; Gestão e Governança; Pessoas em Situação de Rua
e o Sistema Criminal; Gestão e Governança; Moradia Adequada e Empregabilidade;
Violência Estrutural; e Justiça Restaurativa. Além de sugestões recebidas
durante as discussões, as oficinas foram norteadas pelas 51 propostas enviadas
previamente pelos participantes.
De acordo com os juízes Vladimir Vitovsky (TRF-2) e
Fábio Póvoa (TJPA), membros da Comissão Científica do Encontro, os debates
foram construídos sobre o tema do evento, que propõe uma Justiça emancipatória
e liberdades substantivas. Segundo eles, foram aprovadas 42 recomendações nas
oficinas.
Conforme os juízes, as propostas seguem a perspectiva
de que as ações em relação a essa população não são sobre caridade, mas sobre
direitos. “A ideia é que essas abordagens levem à emancipação, à autonomia
dessas pessoas, com a preservação da identidade de cada um, como pessoa”,
afirmou Póvoa.
Além disso, as oficinas foram atreladas às boas
práticas no atendimento à população em situação de rua. “Queremos que essas
iniciativas influenciem a sociedade para entender melhor o contexto dessas
pessoas e ter uma postura mais acolhedora, sem um ambiente hostil e de exclusão
social”, defendeu Vladimir Vitovsky.
Para o II Encontro Nacional PopRuaJud, os eixos de
discussão foram atualizados, com a inserção do tema Justiça Restaurativa. A
questão substituiu o debate sobre saúde mental, que foi discutida no ano
passado e será tema do último protocolo a ser lançado pelo Comitê ainda neste
ano.
Para os membros da Comissão Científica, a Justiça
Restaurativa tem sido utilizada nos tribunais e pode ser integrada à atuação
junto à população em situação de rua. Por ser uma metodologia que busca
soluções para conflitos por meio do diálogo e da participação das partes
envolvidas, a Justiça Restaurativa surge como ferramenta para “identificar e,
se possível, tratar as causas que levam as pessoas à situação de rua”, como
explicou Fábio Póvoa. Para o CNJ, 2025 é o ano da Justiça Restaurativa nas
Instituições, o que reforça a adoção da prática no
contexto PopRuaJud.
Violências
Já as discussões da oficina sobre Violência Estrutural
foram fundamentadas nos resultados da consulta
pública que tratou desse tema. Organizado pelo Comitê
Nacional PopRuaJud, o diagnóstico apresentou dados sobre as violências sofridas
por essa população, incluindo preconceito, estigmatização, racismo e
criminalização.
Segundo um dos coordenadores da oficina temática, o
juiz federal do TRF-3 Renato Nigro, o relatório da consulta pública cruza os
dados a outras informações, como o relatório do Ministério de Direitos Humanos
(2024) e do sistema nacional de agravo e violência do Ministério da
Saúde.
As formas de violência mais frequentemente incluíram
agressões físicas praticadas por agentes do Estado, a retirada de pertences e
as barreiras no acesso a serviços públicos essenciais. “Esses dados revelaram
uma grande violência institucional contra essas pessoas. Além disso, trouxeram
mais elementos para serem pensados dentro dos grupos de discussão, que
formularam recomendações para esse contexto”, explicou Nigro.
Primeiros resultados
O Comitê Nacional lançou, durante os debates, o
primeiro Manual Orientativo. O conteúdo contempla as 60 propostas que foram
aprovadas nos eixos temáticos debatidos durante o I Encontro Nacional
PopRuaJud, realizado em novembro de 2024.
Acesse
o Manual Orientativo 2024
Para o coordenador do Comitê Nacional, conselheiro
Pablo Coutinho Barreto, “é essencial essa multiplicidade de olhares e falas —
como acontece nas oficinas temáticas — para construir diretrizes de maneira
mais completa”. Para ele, as orientações aprovadas e que compõem o Manual
Orientativo podem ser aplicadas pelos comitês locais, dentro de suas
especificidades. “Esse trabalho reflete o que o PopRuaJud precisa ter, que é
uma atuação em rede. Não há como atuar nessa causa sem ser de forma ordenada,
cooperativa e unida”, ressaltou.
O conselheiro destacou ainda que os problemas dessa
temática são múltiplos e as razões pelas quais as pessoas estão em situação de
rua são as mais diversas. “As formas que o Poder Judiciário pode atuar — direta
ou indiretamente — nessas condições são variadas. E, para isso, o Manual traz
orientações para os casos concretos, na perspectiva da atuação em rede”.
Fonte: CNJ