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Registro Civil na mídia: Por que cada vez mais mulheres deixam de adotar o sobrenome do marido?
Levantamento dos Cartórios de Registro
Civil do Brasil mostra que as mulheres adotaram o sobrenome do marido em 39,7%
dos casamentos em 2024, o menor patamar da série histórica; em 2003, o índice
ficou acima de 49%.
Letícia Paulino
Franco não achava o próprio sobrenome sonoro o suficiente. Na escola, testava
como ele ficaria combinado ao do namoradinho de então. “Aquela coisa de
princesa”, lembra. Aos 25 anos, subiu ao altar com André e tornou-se Letícia
Franco Maculan Assumpção, somando aos documentos dois sobrenomes que o parceiro
herdara da família materna. Naquela época, em 1994, a mudança era praxe — e não
um tratamento desigual, como passou a pensar com o tempo. A partir dali, nas
quase duas décadas em que atua como oficial do cartório de Registro Civil e
Notas do Distrito de Barreiro, em Belo Horizonte (MG), ela viu de perto a
tradição perder força:
— Por que eu vou mudar de nome e ele não? O certo não
seria os dois ou ninguém mudar, e os filhos refletirem essa mudança? Fiquei
surpresa com o quão rápido as mulheres mudaram de pensamento. É uma tendência.
Um levantamento dos Cartórios de Registro Civil do
Brasil corrobora essa percepção. Em 2024, dado fechado mais recente disponível,
as mulheres adotaram o sobrenome do marido em 39,7% dos matrimônios, abaixo dos
40% pela segunda vez seguida, consolidando o menor patamar da série histórica.
Em 2003, o índice ficou acima de 49%.
Especialistas ouvidos pelo GLOBO apontam que os dados
refletem um movimento de independência feminina, com progressiva qualificação
profissional e entrada no mercado de trabalho. Além disso, a legislação do país
acompanhou — ao mesmo tempo em que fomentou — essa guinada, com normas que
privilegiam a autonomia e a liberdade.
Embora muitas mulheres ainda adotem o sobrenome do
marido (foram mais de 371 mil só em 2024), a maioria hoje escolhe não fazê-lo,
seja pelo receio da burocracia de trocar os documentos, seja pelo simples
desejo de manter o batismo original. O fenômeno reflete-se em outro recorte
estatístico: há duas décadas, em cerca de um terço das uniões nenhum dos
parceiros fazia alterações; agora, mais da metade segue esse caminho.
— Assumi o cartório há 18 anos e, antigamente, via
briga no balcão. A mulher dizia: “Não vou mudar”. O homem respondia: “Se não
mudar, não caso”. E às vezes deixavam mesmo de casar por causa disso. Hoje são
pouquíssimos os casos em que sou chamada a intervir. As pessoas estão mais
conscientes de que ninguém é obrigado a se submeter. É uma revolução. No
futuro, vai ser raridade — aposta Letícia.
Apesar da tendência geral, os dados compilados pela
Associação dos Registradores de Pessoas Naturais (Arpen-Brasil) indicam um
cenário diverso no país. Os quatro estados com maior percentual de mulheres
trocando o sobrenome (Santa Catarina, Paraná, São Paulo e Rio de Janeiro) estão
entre as principais economias brasileiras. Na outra ponta, estados do Norte e
do Nordeste concentram os menores índices (veja mais no infográfico acima).
Costumes regionais, influências religiosas, status e falta de informação, além
do custo em si, estão entre fatores que contribuem para as diferenças.
Para Devanir Garcia, presidente da Arpen-Brasil, os
números dos mais de oito mil cartórios do país traduzem um novo momento da
sociedade, de reafirmação da mulher e de retração do machismo:
— A sociedade hoje é muito diferente daquela de 2003,
e as mulheres conquistaram mais espaço e independência. Antes, a adoção do
sobrenome era vista como uma chancela do vínculo. Com o Código Civil de 2002,
os homens passaram a poder adotar o sobrenome das mulheres. É o princípio da
igualdade.
‘Faz parte de mim’
A dentista Camila Gouveia Carneiro leva na identidade
e em tatuagem no corpo os sobrenomes de mãe e pai. Nunca cogitou mudar, nem
sofreu pressão ao se casar com Pedro Hugo Pereira, há um ano.
— Um sobrenome tem a ver com identidade. Como tiro o
sobrenome da minha família e boto o do meu marido? Estamos formando família,
então faz sentido ter nosso sobrenome nos nossos filhos. Não mudei por questão
de trabalho, finanças e origem. O sobrenome faz parte de mim — explica Camila.
— E outra: vai que me separo? Espero que nunca, mas teria trabalho dobrado.
Se tivesse se casado cinco décadas atrás, Camila seria
obrigada a ser Pereira. O Código Civil de 1916 ordenava a mudança para
mulheres, relegadas à época a um papel social subalterno, como detalha a
advogada Ana Borela, especializada em direito de família. Aos poucos, direitos
foram reconhecidos, como o voto, em 1932, e o divórcio, em 1977.
— Só com a Lei do Divórcio virou facultativa a
alteração do nome. A sociedade muda, o direito se moderniza, é uma via de mão
dupla. Depois, vem a Constituição de 1988, que prevê a igualdade de gênero em
vários aspectos, e o Código de 2002, que de fato equipara a questão do
sobrenome. Mas é tudo muito recente. A mudança é lenta e complexa — pontua
Borela.
A possibilidade de os homens alterarem o nome, por
exemplo, ainda “não pegou”, com menos de 1% fazendo essa opção anualmente. Por
outro lado, os matrimônios em que ambos escolhem a troca flutuaram: eram 5% em
2003, passaram a 11% após uma década e recuaram para 7,5% nas informações mais
recentes.
Borela acrescenta que os dados refletem a atual
pluralidade do conceito de família, que privilegia laços afetivos diversos.
Além disso, hoje são comuns os segundos (ou terceiros, quartos, quintos...)
casamentos, que também acabam contraídos mais tarde, com noivos muitas vezes
chegando ao altar já com filhos, conquistas e vivências — o que aumenta o
número de documentos a serem atualizados.
Peso da burocracia
Embora tenha sido simplificada nos últimos anos, a
burocracia também pesa na decisão. O custo e o tempo variam conforme o estado,
o patrimônio do titular e o atendimento dos órgãos. O primeiro passo para mudar
o nome é feito no cartório, com averbações e certidões. No cartório de Letícia
Maculan, em Minas, essa etapa sai a cerca de R$ 300.
Vários documentos podem ser atualizados pela internet
e sem custo, como o CPF, que serve de “base” para os demais (a carteira de
trabalho digital atualiza automaticamente, em 48 horas). Também é possível
resolver online o título de eleitor, contas, plano de saúde e certificados
escolares (a depender da entidade, pode haver taxas). Em alguns casos, contudo,
é preciso agendar nova emissão de documentos.
Alguns cartórios têm convênio para agilizar a mudança
no RG, e a primeira via da Carteira de Identidade Nacional (CIN) é gratuita (a segunda,
em geral, fica entre R$ 50-60). Também é necessário emitir um novo passaporte,
a partir de R$ 257,25. A orientação é adquirir a passagem no nome de
solteiro(a), se for viajar logo depois de casar. Já para mudar o nome em um
visto, só mesmo tirando um novo.
É preciso, ainda, agendar atendimento para mudar a CNH
(R$ 200,91 no Detran do Rio) e a documentação veicular (mais R$ 200,91, também
no Rio). Tudo isso sem contar despesas com deslocamentos, averbação do nome em
conselhos profissionais, como a OAB, e em escrituras de imóveis. Ana Borela
orienta os clientes a regularizarem tudo, já que pendências podem acarretar
problemas, inclusive para os filhos:
— Tive problema com meu título de eleitor porque minha
mãe se divorciou e tirou o sobrenome do meu pai, apareceu pendência no meu
documento. Consegui resolver antes de votar, mas inconsistências podem trazer
prejuízos.
A legislação atual permite que as pessoas mudem de
sobrenome durante o casamento e até após a viuvez, sem precisar de advogado.
Letícia Maculan destaca que se trata de um direito da pessoa, que não pode ser
pressionada a voltar atrás num eventual divórcio:
— Se a mulher diz que quer se divorciar e tirar o
sobrenome, eu falo: “Você pensou bem nisso? O trabalho que vai te dar?” Se
odiá-lo, tudo bem. Mas, se ela é conhecida na sociedade assim, não é nome de
outra pessoa, é o nome dela. E o homem não tem nada que opinar sobre isso.
Fonte: O Globo