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Retificação de certidões de óbito avança em 2025 e consolida política de reparação às vítimas da ditadura
Em 2025, iniciativa do Ministério dos
Direitos Humanos e da Cidadania garantiu a entrega de mais de 100 certidões de
óbito retificadas a familiares de mortos e desaparecidos políticos da ditadura
militar
A retificação das certidões de óbito de pessoas mortas
ou desaparecidas durante a ditadura militar avançou significativamente em 2025,
sob a coordenação do Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania (MDHC),
consolidando-se como uma das principais políticas de reparação simbólica
conduzidas pelo Estado brasileiro no campo da memória, da verdade e da justiça.
Esta iniciativa atende a uma reivindicação histórica
dos familiares das vítimas de graves violações de direitos humanos cometidas no
período autoritário e tem sido implementada pelo MDHC e pela Comissão Especial
sobre Mortos e Desaparecidos Políticos (CEMDP) e em articulação com o Operador
Nacional do Registro Civil das Pessoas Naturais (ON-RCPN).
O trabalho busca dar cumprimento à Recomendação n.º 7
do Relatório Final da Comissão Nacional da Verdade (CNV), que determina a
correção da causa da morte nos registros civis das vítimas da repressão
política. Os procedimentos para a retificação foram estabelecidos pela CEMDP,
em 2017, com a edição da Resolução n.º 2, e tornaram-se efetivos em dezembro de
2018, quando foi entregue a primeira certidão retificada à família de José
Pinheiro Jobim. Contudo, após um período de interrupção entre 2019 e 2022, os trabalhos
foram retomados em agosto de 2024, a partir da reestruturação da Comissão no
atual governo, sob a liderança do MDHC.
Em setembro de 2024, o MDHC, em conjunto com a CEMDP,
encaminharam ao Supremo Tribunal Federal (STF) e ao Conselho Nacional de
Justiça (CNJ) uma proposta de resolução para regulamentar nacionalmente o
reconhecimento e a retificação dos assentos de óbito das vítimas da ditadura. A
iniciativa resultou na aprovação da Resolução n.º 601 do CNJ, em dezembro
daquele ano, determinando que cartórios de todo o país promovam a retificação
dos registros das pessoas reconhecidas pela CNV como mortas ou desaparecidas em
decorrência da repressão política. As certidões passaram a registrar como causa
da morte a expressão “violenta, não natural, causada pelo Estado brasileiro no
contexto da perseguição sistemática à população identificada como dissidente
política do regime ditatorial instaurado em 1964”, além de incluir, quando
conhecidos, os locais de morte.
Até o momento, mais de 300 certidões de óbito já foram
retificadas. Em 2025, a entrega dos documentos às famílias ocorreu em três
solenidades oficiais organizadas com apoio do MDHC: em agosto, na Assembleia
Legislativa de Minas Gerais, em Belo Horizonte; em outubro, no Salão Nobre da
Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (USP); e, em dezembro, em
Brasília, durante o II Encontro Nacional de Familiares de Pessoas Mortas e
Desaparecidas Políticas. Somadas, as cerimônias resultaram na entrega de cerca
de 110 certidões, marcando um passo importante no processo de reparação moral
às famílias.
Para a presidenta da CEMDP, procuradora federal
Eugênia Augusta Gonzaga, a dimensão alcançada pela política superou as
expectativas iniciais. “Quando iniciamos esse processo de retificações das
certidões em 2018, não imaginávamos a dimensão que teria para as famílias. Essa
tem sido a maior política de reparação moral já realizada pelo Estado
brasileiro aos familiares das vítimas de violência do Estado”, afirmou.
O Coordenador-Geral de Apoio à Comissão Especial sobre
Mortos e Desaparecidos Políticos, Caio Cateb, destacou o esforço institucional
envolvido. “Foi um grande desafio para a Coordenação-Geral e para a CEMDP
realizar todo o trabalho de sistematizar as informações, organizar o fluxo das
retificações, alcançando já mais de 300 certidões de óbitos retificadas ao fim
desse ano”, relembrou.
“Cada solenidade de entrega representou momentos de
grandes emoções, que nos deu a honra de poder colaborar com esse marco
histórico de reparação aos familiares e de compromisso do governo federal com o
direito à memória e à verdade”, ressaltou.
Na avaliação do chefe da Assessoria Especial de Defesa
da Democracia, Memória e Verdade do MDHC, Hamilton Pereira, os atos de entrega
simbolizam um movimento tardio, porém necessário. “Com os Atos de Entrega das
Certidões de Óbito retificadas nos termos da Resolução 601/24 do CNJ, em Belo
Horizonte, São Paulo e Brasília, o Estado brasileiro inicia, tardiamente, o
resgate de um passivo histórico com a sociedade e seus filhos que combateram a
ditadura e fundaram os alicerces para a reconstrução da democracia”, afirmou.
Reconhecimento
Entre os familiares, a retificação das certidões tem significado alívio,
reconhecimento e também questionamentos. Em Minas Gerais, Valéria Costa Couto,
irmã de Walkíria Afonso Costa, comparou o novo documento com o registro
anterior. “É claro que esta segunda certidão de óbito, entregue em 2025, está
bem mais clara do que a primeira, entregue em 1996, onde se lia apenas que
Walkíria havia sido encontrada morta em local ignorado, sem causa da morte
definida”, relatou.
Segundo ela, a nova certidão traz o reconhecimento
explícito da responsabilidade estatal: “Agora consta ‘local do falecimento:
Base de Xambioá; causa da morte: não natural, violenta, causada pelo Estado
brasileiro’. Mas seguimos perguntando: e as punições aos assassinos? E que
segurança temos de que essa situação não se repetirá?”.
Em São Paulo, Grenaldo Erdmundo da Silva Mesut, filho
de Grenaldo de Jesus da Silva, identificado oficialmente em 2025, destacou o
impacto do reconhecimento estatal. “Minha opinião em relação à mudança da
certidão é a importância do compromisso que o Estado tem em relação à memória e
à verdade. Essa reparação foi de suma importância para as famílias e para os
que tanto lutaram a favor da democracia. Eu, em especial, estou muito feliz e
aliviado em saber da verdade e, principalmente, do reconhecimento do governo”,
afirmou.
Já em Brasília, durante o II Encontro Nacional de
Familiares, Carmem Lúcia Coaracy, representante da família de Ieda Santos
Delgado, ressaltou o caráter simbólico da medida. “O reconhecimento e a
consequente retificação da certidão de óbito de Ieda simbolizaram uma vitória
da luta travada por ela em benefício de todos nós. Assassinada pelos
torturadores do golpe de 1964, Ieda é hoje uma pessoa desaparecida política
como tantos outros”, declarou.
Para ela, o trabalho da Comissão representa não apenas
reparação, mas também esperança: “O trabalho exercido pela comissão ligada ao
Ministério dos Direitos Humanos trouxe conforto a nós, familiares, e a
esperança de ainda a encontrar, já que essa busca não tem prazo para acabar.
Toda essa resistência ficará conhecida por futuras gerações de brasileiros na
luta contra possíveis planos de novas repressões. Ditadura nunca mais”.
Fonte: Gov.br