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Suprema Corte dos EUA mantém direito à cidadania por nascimento
Por
6 votos a 3, Corte manteve a proteção da 14ª Emenda da Constituição e impôs
derrota à política migratória de Donald Trump.
A
Suprema Corte dos Estados Unidos decidiu nesta terça-feira, 30, reafirmar o
direito à cidadania por nascimento previsto na 14ª Emenda da Constituição
americana. Por 6 votos a 3, os ministros concluíram que crianças nascidas em
território americano continuam tendo direito à cidadania, ainda que sejam
filhas de imigrantes em situação irregular ou de estrangeiros em estadia
temporária.
A
decisão representa uma derrota para Trump, que, no primeiro dia de seu segundo
mandato, assinou uma ordem executiva para restringir a chamada birthright
citizenship (cidadania por nascimento). A medida nunca chegou a entrar em
vigor, pois foi suspensa por decisões de tribunais federais inferiores.
Ao
proferir o voto majoritário, o presidente da Suprema Corte, John Roberts,
afirmou que o entendimento adotado há mais de um século permanece válido.
Segundo ele, a interpretação defendida pelo governo representa uma leitura
"drasticamente revisionista" da 14ª Emenda.
Roberts
destacou que a Constituição garante cidadania às pessoas nascidas nos Estados
Unidos e sujeitas à jurisdição do país, reafirmando precedente firmado em 1898
no caso United States v. Wong Kim Ark, considerado o marco da interpretação
moderna da cláusula de cidadania.
Na
ocasião, a Suprema Corte reconheceu a cidadania de Wong Kim Ark, nascido em San
Francisco, filho de imigrantes chineses, consolidando o entendimento de que o
local de nascimento, e não a nacionalidade dos pais, é o fator determinante
para a aquisição da cidadania americana.
A
maioria foi formada por Roberts, pelas ministras Amy Coney Barrett e Ketanji
Brown Jackson, pelos ministros Brett Kavanaugh, Sonia Sotomayor e Elena Kagan.
Ficaram vencidos Clarence Thomas, Samuel Alito e Neil Gorsuch.
Em
voto divergente, Thomas sustentou que a 14ª Emenda foi concebida para assegurar
cidadania aos ex-escravizados e seus descendentes, não abrangendo
automaticamente filhos de visitantes temporários ou de imigrantes sem
autorização de residência. Alito também criticou a decisão, afirmando que ela
mantém a concessão de cidadania a praticamente todas as pessoas nascidas no
país, inclusive em situações de chamado "turismo de nascimento".
Ordem
executiva
A
ordem assinada por Trump determinava que filhos de imigrantes em situação
irregular e de estrangeiros presentes temporariamente nos Estados Unidos
deixassem de receber automaticamente a cidadania americana.
O
governo defendia que a política estimularia a imigração irregular e o chamado
"turismo de nascimento", prática pela qual estrangeiros viajariam ao
país com o objetivo de garantir cidadania aos filhos.
A
tese, porém, foi rejeitada pela Suprema Corte, que reafirmou o entendimento
consolidado de que a garantia decorre diretamente da Constituição e não pode
ser restringida por ato do Poder Executivo.
Após
a decisão, Trump criticou o julgamento em publicação nas redes sociais e
afirmou que tentará levar o tema ao Congresso, embora a maioria da Corte tenha
reconhecido que a cidadania por nascimento decorre da própria Constituição
americana. As informações foram divulgadas pelo The New York Times.
Segurança
jurídica
Ao
Migalhas, o advogado licenciado nos Estados Unidos Vinícius Bicalho (Bicalho
Legal Consulting P.A.). especialista em Direito Migratório, destacou que a
decisão restabelece a segurança jurídica para famílias que vivem legalmente no
país e pretendem constituir família nos EUA. Segundo ele, o julgamento preserva
uma garantia constitucional histórica, mas não altera as regras para obtenção
de vistos, residência permanente (green card) ou naturalização, nem cria novos
caminhos para a imigração legal.
"A
decisão da Suprema Corte encerra um período de grande insegurança jurídica para
milhares de famílias que vivem nos Estados Unidos. Muitos brasileiros que já
construíram suas carreiras e suas vidas no país acompanhavam esse julgamento
com preocupação porque ele envolvia uma garantia constitucional histórica para
seus futuros filhos. A Suprema Corte deixa claro que esse direito permanece
preservado."
Fonte:
Migalhas